8.3.12

Da tradição oral à escrita

A transição da tradição oral para a escrita foi lenta. Vamos lembrar que o filósofo Sócrates era avesso à escrita no século IV a.C. Para ele, o pensar é um processo dinâmico, que só poderia ser aprimorado através do debate, do diálogo. A escrita distanciaria os debatedores, atrapalhando o desenvolvimento das ideias.

Na Idade Média grandes literatas ainda eram oradores, cabendo à escrita a função de registro. Os autores dos livros não necessariamente os escrevia, como é mostrado no livro "A técnica do livro segundo São Jerônimo", eles ditavam seus textos aos taquígrafos. Posteriormente, um escriba compunha o texto. Depois vinham os copistas... Todos esses profissionais eram caros, mas eram apenas técnicos. Dentre essas profissões, a de taquígrafo ainda existe e continua bem remunerada nos dias atuais.

Para ilustrar a posição hierárquica que os escribas ocupavam, compartilho uma iluminura que está no final do manuscrito "Bíblia rica de Toledo" e um recorte de sua explicação.



A parte de baixo está reservada para os que são realmente inferiores. A posição de subordinação destas duas personagens é evidente, porque as suas representações, mais pequenas, ocupam um plano inferior, o que significa que enquanto a responsabilidade na obra desempenham uma função subalterna. Aparece, em primeiro lugar, um clérigo sentado no seu escano que se dirige ao copista, dando-lhe ordens e controlando o seu trabalho. O referido clérigo está vestido com um aparato religioso. Devemos, portanto, descartar desde o princípio a intervenção de uma personagem investida com a dignidade episcopal, como em algumas ocasiões foi sugerido.

(...)
O copista que figura na iluminura final é também a representação de um colectivo de artesãos das artes do livro que nele tomaram parte activa. Basta um olhar atento em qualquer dos tomos da Bíblia para se convencer da multidão de mãos que intervieram nas tarefas da cópia. Também são mais de um os iluminadores que intervieram na decoração.
  
Ramón Gonzálvez Ruiz
Cónego Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Catedral Primada de Toledo

6.3.12

Obras raras online

A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos possui um pequeno e interessante acervo digital de obras raras da medicina. São preciosas antiguidades do mundo inteiro.



O formato das visualizações é bem interessante, pois tenta reproduzir a realidade do objeto mostrado. Então, um antigo papiro egípcio é exibido na forma de rolo e com o mouse você pode ir desenrolando o livro.


O livro de Cosmografia iraniano abre de trás para frente.

Vale a pena uma visita ao Turning the Pages online.


5.3.12

Quatro meses de Buenos Aires em dois minutos

Para começar a semana e dar início a uma série de textos sobre minhas experiências em Buenos Aires, compartilho um vídeo que fiz em stop-motion com as fotos que tirei durante a viagem, usando uma máquina automática simples e sem nada na cabeça.




Boa viagem!

28.2.12

E o Oscar vai para o passado!

O Oscar deste ano teve um ar nostálgico, tanto pelo grande vencedor da noite quanto pelo curta de animação premiado. Ambos nos levam a um tempo passado e nos fazem refletir sobre as transformações tecnológicas que influenciam a arte.

O cartaz  do filme também merece uma menção


O Artista é um filme mudo, em preto e branco, que fala da chegada de uma nova tecnologia ao universo cinematográfico: o som! E como cada personagem vai lidar com a inevitável mudança. Passei o filme inteiro pensando em como me adaptar às mudanças que estão ocorrendo no mercado editorial...



Nesse ponto, entramos no curta de animação "The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore", que eu já havia compartilhado aqui, uma animação nos moldes do cinema mudo. E que tem como temática os livros. Esses adorados objetos que também estão sendo transformados pela tecnologia digital. Deixarão os livros de existir? Claro que não! Eles apenas vão mudar de forma, mas também existá o formato códice, esse nosso velho conhecido que se folheia. Coexistirão.



O mais interessante nessa nostalgia, é não ser chorosa, não ser um lamento, nem uma tentativa de retorno ao passado. Ambos os filmes não abrem mão da tecnologia. A animação tem até um aplicativo interativo para Ipad. O que se vê é o novo somando-se ao antigo, e que o antigo não precisa ser descartado. Não ficamos presos ao passado, nem jogamos fora nossa história. O Artista é uma prova de que um filme mudo ainda pode emocionar e ter tanta qualidade quanto qualquer outro. É só uma questão de linguagem, o que importa mesmo é o conteúdo e como a forma escolhida se relaciona com esse conteúdo.

22.2.12

stilus e calamus

No século IV "O escritor matém sempre dois instrumentos ao alcance da mão: o estilete (stilus) e a pena (calamus). Parece que, devido a  origem mais antiga, o stilus terá tido um e mprego mais amplo, porém o calamus lhe tomará o lugar, à medida que a evolução da técnica da cópia generalizar sua  utilização.

(...) o estilete é um instrumento que escreve na cera, a pena escreve seja no papiro, seja no pergaminho ou em qualquer matéria apta a receber a escritura"

16.2.12

Confetes para o Carnaval

Experimentei fazer uns padrões para fundo de tela bem coloridos, e achei tudo a ver com o clima pré-Carnaval da semana. No mínimo divertido!


Beeem coloridos



Cores pastéis



 Menores



Copafetes!

13.2.12

Para animar o início da semana...

Não importa a forma, o livro é uma ferramenta de transmissão de conhecimento.


8.2.12

Unciais

O interessante de estudar a história do livro é ver como tudo evolui junto: escrita, caligrafia, materiais e formatos. Alguns detalhes, tão comuns em nosso dia-a-dia, foram  revolucionários e se desenvolveram ao longo de anos. Na escrita, por exemplo, no início da era cristã não havia separação entre as palavras, nem pontuação ou diferenciação entre maiúsculas e minúsculas. É nesse contexto de monges escribas, cálamos e pergaminhos que a caligrafia uncial se estabelece e sobrevive por séculos.

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As unciais surgem com o uso do pergaminho, mais liso que o papiro, permitindo rapidez ao calígrafo na medida em que ele não precisa tirar a pena do suporte para grafar alguns caracteres. As letras tornam-se mais contínuas e arredondadas. Abaixo uma comparação entre capitalis (primeira linha) e uncialis (segunda linha) perfeito para observar essas mudanças.

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Um dos mais antigos exemplares da bíblia que ainda pode ser visto no museu do Vaticano, o Códex Vaticanus, foi escrito em unciais gregas e nos dá uma noção de como eram os escritos do século IV.

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No século IX as unciais latinas ainda eram usadas, como pode ser visto nesse exemplar do Novo Testamento, escrito em ouro e ricamente ornado.

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Os principais tipos digitais unciais são:


Libra











Omnia (minha favorita)




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Principais referências:
Tipografos.net
Cadernos de Tipografia e Design Nº 18

2.2.12

Suporte para a escrita

Qualquer superfície pode ser utilizada como suporte para a escrita. Mas existem aqueles que foram usados de forma sistemática ao longo das civilizações e fazem parte da história da escrita.

Inicialmente os suportes mais duros eram utilizados: pedra, madeira, casca de árvore, casco de animais e ossos registraram o alvorecer da linguagem escrita. Desses, o mais marcante até hoje são as placas de argila utilizadas na Suméria (antiga civilização localizada onde atualmente temos o Iraque) cerca de 3500 a.C. para a escrita cuneiforme – considerada pelos historiadores a primeira. Para marcar a argila era utilizada uma cunha.




Depois vieram os suportes de origem vegetal, como as folhas de palmeira na Índia e o bambú na China.




O papiro espalha-se do Egito por toda Europa e Oriente Médio depois de 2500 a.C. Fabricado a partir de tiras entelaçadas do caule da planta de mesmo nome. Neste link há um passo-a-passo de como fabricar uma folha de papiro. E Abaixo, reprodução de um texto de medicina egípcio escrito em papiro e datado por volta de 1600 a.C.



Na América, os Maias utilizavam uma espécie de papel, chamado de Kopó, fabricado a partir da casca de figueira e mais propício à escrita que o famoso papiro. Um dos poucos códices maias que sobreviveram à invasão espanhola, encontra-se atualmente na cidade de Dresden, na Alemanha e foi escrito nesse tipo de papel.



Voltando à Europa e aos suportes mais rígidos, tábuas de madeira revestidas de cera eram utilizadas na Roma Antiga para anotações cotidianas, com a vantagem de poder ser apagada, simplesmente raspando a camada de cera escrita e substituindo por uma nova camada lisa. Nas chamadas tábulas se escreviam com uma espécie de estilete ou marcador de ponta fina.




De origem animal, o pergaminho conquista o Ocidente e Oriente Médio na Antiguidade por sua durabilidade. Este material foi usado amplamente nos mosteiros da Idade Média para presevar diversos textos. Feito a partir de pele animal, até hoje é utilizado para documentos importantes, pois além de durável, dificulta a falsificação. No Brasil ainda há fabricação artesanal de pergaminho.






Mas é o papel chinês que conquista o mundo e torna-se o suporte mais importante de nosso tempo. Dele não é preciso falar muito...

Agora caminhamos para as tablets digitais, que lembram as antigas tábulas de madeira.


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Atualização 08/02/2012

Encontrei essas fotos de cálamo, precursora da caneta de pena, muito usado para escrever no papiro, pergaminho e papel. Tem também um esquema mostrando como cortar a ponta da pena para a escrita.



2.1.12

Pausa para balanço em 2011


Em geral, designers adoram super-heróis
e acabam querendo se tornar um deles.
Essa é uma profissão de super-homens
que sabem desenhar, planejar, programar, vender...
e eventualmente fazem projetos.
Fortes como o Incrível Hulk, dormem pouco,
não têm muito tempo para comer,
mas são sempre simpáticos
e brincalhões com os clientes, colegas e chefes.
Enfrentam cara feia, prazo apertado, falta de recursos.
Combatem o mau gosto e a falta de senso estético da humanidade.
Assim parecem que são meus colegas de profissão.

Como não me encaixo nesse perfil,
dei uma pausa do trabalho.
Em maio tirei uma licença
e fui viajar com minhas poucas economias.
Vi e vivi muitas coisas, mas não trabalhei.

Apesar desse blog não ser profissional,
ele é alimentado por minhas experiências
e descobertas profissionais.
Assim parada, ele parou comigo.

Agora que retorno, o paper toy da Mulher Maravilha
me faz companhia, para que eu não me esqueça
que sou uma simples mortal humana.
E que venham os trabalhos de 2012!